As raízes do Hapkido

O Hapkido evoluiu durante a metade do século XX por seletivamente fundir uma ampla gama de habilidades marciais já existentes com algumas inovações. A grande base técnica do Hapkido veio do Daito Ryu Aiki-Jujutsu, uma arte japonesa, que foi reinterpretada e integrada com muitas ideias e técnicas de artes coreanas nativas. Consequentemente, para entender as raízes do Hapkido, necessita-se traçar a evolução de artes marciais japonesas e coreanas. Tal exercício também revela a relação do Hapkido com outras artes marciais do século XX, como Aikido, Judo, Jujutsu, Taekwondo e outros estilos coreanos ecléticos, como o Kuk Sool Won e Hwa Rang Do.

 

Artes marciais coreanas nativas

A península coreana foi habitada primeiramente em torno de 32.000 anos, quando tribos nômades da parte central e norte da Ásia migraram para esta área. As primeiras influências externas absorvidas por estas tribos provavelmente vieram pelo contato com os chineses, que estabeleceram postos de observação na parte norte da península coreana, em torno de 2.130 anos atrás. As constantes guerras contra os chineses forçaram estas tribos dispersas a coalescerem em entidades políticas maiores, eventualmente levando à formação de três reinos poderosos: Koguriǒ, Silla e Paekche. Isto marcou o início do Período dos Três Reinos (2.000 – 1.350 anos atrás).

Durante este período, a arquitetura, literatura, política e artes marciais e militares coreanas cresceram, enquanto as influências chinesas continuaram a ser assimiladas e reinterpretadas de maneira única pela cultura coreana. O budismo gradualmente se tornou a religião do estado nos três reinos, e foi eventualmente transmitido ao Japão por meio de Paekche. O aumento do contato entre as culturas da Coreia, Japão e China não apenas influenciou suas sociedades, mas também as suas artes marciais nativas.

Acredita-se que as artes marciais nativas coreanas surgiram durante o Período dos Três Reinos. Neste período, as artes marciais coreanas não possuíam um único nome. Ao invés disso, supõe-se que habilidades específicas foram agrupadas em áreas técnicas, que foram denominadas com termos genéricos. Alguns destes termos são:

Su Bak (socos e encontrões)

T´ae Kyon (chutes)

Kag Ju (projeções)

Kung Sa (arquearia)

Ki Ma Sa Bop (arquearia montada)

Tan Gom Sul (facas)

Kom Sul Bop (espadas)

Su Yong Bop (luta na água)

Estes não são nomes de estilos ou sistemas específicos de artes marciais, embora sejam frequentemente utilizados erroneamente neste contexto. Embora existam relatos da prática destas técnicas e que campeonatos eram populares, infelizmente não existem provas escritas que descrevem sistemas de artes marciais ou suas técnicas específicas. As informações limitadas vêm de pinturas, artefatos e dois manuscritos antigos coreanos: o Samkuk Saki (A História dos Três Reinos), escrito no século XII, e o Samkuk Yusa (Os Arquivos dos Três Reinos), escrito no século XIII. Textos chineses e japoneses antigos também fazem ocasionais referências às artes marciais coreanas.

Foi durante o Período dos Três Reinos que duas classes notáveis de guerreiros evoluíram: os Sun Bi (inteligentes e bravos), e depois os Hwa Rang (flores da juventude). Os Hwa Rang emergiram no reino de Silla em torno de 1.470 anos atrás. Além de serem guerreiros, eles carregam a reputação de ter estabelecido um código moral de conduta e eram escolarizados em artes intelectuais e culturais daquele tempo. Eles serviram mais tarde de instrumento de unificação dos Três Reinos e influenciaram o desenvolvimento do Bushido (caminho do guerreiro) no Japão, que é um código de ética seguido pelas classes guerreiras japonesas. Esta transmissão inicial das artes marciais coreanas pode ter ocorrido durante o Período dos Três Reinos, quando a cultura coreana foi pela primeira vez exportada para o Japão. Por exemplo, arquitetos do reino coreano de Paekche estavam profundamente envolvidos na construção e proliferação de templos que ocorreu no Japão durante o século VI. De fato, houve uma época durante a história do Japão em que existiam mais coreanos ocupando posições religiosas seculares do que os próprios japoneses.

A península coreana foi unificada pela primeira vez a 1.350 anos atrás quando o reino Silla conquistou Koguriǒ e Paekche. Esta unificação resistiu a várias mudanças de governos até a metade do século XX. Neste período de 800 anos, as artes marciais coreanas passaram por diversos períodos de avanços e declínios, dependendo do clima político prevalente e das necessidades do povo. Por volta de 900 anos atrás, o termo genérico Yu Sul (método suave) emergiu como termo abrangente para diversas artes marciais com estas características. Acredita-se que Yu Sul foi caracterizado por projeções (mechigui), agarrões (kuchigi) e ataques a pontos vitais (kuepso chirigi). Kuepso chirigi é o equivalente coreano do japonês Atemi e dos chineses Tien Hsueh e Dim Mok – todos atualmente integrados em diversas artes marciais contemporâneas.

Por volta de 600 anos atrás, mais sistemas de lutas com mãos livres evoluíram. Kwǒn Bǒp surgiu como um termo abrangente para artes marciais coreanas com mãos livres. Ssirǔm era o termo para um sistema de agarrões, com raízes em formas de luta livre da Mongólia. Pakchigi era um sistema de golpes com a cabeça, popular no norte da Coreia. Kag Sul e T´ae Kyǒn eram sistemas que enfatizavam os chutes, e Su Sul era um sistema de mãos livres derivado de técnicas com espadas. Em um determinado tempo, Kag Sul acabou sendo chamado de T´ae Kyǒn, e Su Sul de Subyukta (arte de técnicas com as mãos). Subyukta também já foi referido como Su Bak, Su Bak Ki e Su Bak Do. T´ae Kyǒn foi amplamente praticado e continuou a evoluir pelo século XX.

Muitas das ideias filosóficas e técnicas marciais encontradas nestes sistemas acabaram sendo incorporadas ao Hapkido e outras artes marciais coreanas modernas

 

Artes marciais japonesas nativas

Acredita-se que as artes marciais japonesas nativas, chamadas atualmente de Yawara (antigo Jujutsu), surgiram pouco mais de 1.500 anos atrás. Estas habilidades de luta podem ter sido as precursoras dos sistemas Aiki-Jujutsu e o Jujutsu (que carregou o nome antigo). Não se sabe ao certo se estes sistemas sofreram influências coreanas ou chinesas. Alguns historiadores contemporâneos acreditam que a base técnica do Daito Ryu Aiki-Jujutsu foi originalmente transferida do reino de Paekche para o Japão por monges coreanos durante o século VI. Se isso é verdade, estas artes foram provavelmente assimiladas e reinterpretadas para se encaixarem nas necessidades da cultura japonesa.

De acordo com a lenda, em torno de 1.170 anos atrás, o príncipe Teijun, filho do imperador japonês Fujiwara Seiwa, desenvolveu um sistema de artes marciais (chamado atualmente de Aiki-Jujutsu) que foi transmitido secretamente pelos seus filhos. Este sistema foi herdado por Shinra Saburo Minimoto Yoshimitsu, ao qual é creditado o estabelecimento do sistema Daito Ryu de Aiki-Jujutsu. A lenda ainda afirma que Yoshimitsu desenvolveu as técnicas de chaves de articulações ao dissecar os corpos de condenados.

Daito Ryu continuou a ser transmitido através dos séculos, herdado por Tanomo Saigo, que ensinou Sodaku Takeda. Naquela época, cerca de 90 anos atrás, esta arte era conhecida como um sistema marcial que abrangia chaves de articulações, projeções, estrangulamentos e alguns golpes. Takeda descreveu Aiki-Jujutsu em uma entrevista para um jornal:

“Estas técnicas são de uma arte marcial perfeita para a defesa pessoal, na qual você evita ser cortado, golpeado ou chutado, enquanto ao mesmo tempo você não golpeia, chuta ou corta. No momento em que o ataque vem, você lida com ele sem dúvidas usando a força do seu oponente. Então mesmo mulheres e crianças podem executar estas técnicas”. (Tokyo Asahi, 1930)

 

O nascimento do Hapkido

De 1890 até 1945 a Coreia esteve envolvida em frequentes conflitos com e entre China e Japão. Durante este período, muitos coreanos aprenderam extensivamente as artes marciais praticadas nos outros países. Como resultado, muitas técnicas estrangeiras foram fundidas às artes marciais coreanas nativas. Tang Soo Do, Kong Soo Do, Su Bak Ki e Tae Soo Do são algumas das artes marciais duras do século XX que resultaram no Taekwondo.

Em 1910, o Japão anexou a Coreia, aboliu a monarquia coreana e tornou todas as artes marciais coreanas ilegais. Durante este período, muitos coreanos estudaram artes marciais japonesas como Jujutsu, Judô e Kendo enquanto praticavam as artes marciais nativas em segredo. Acredita-se que os monastérios coreanos tiveram um papel crucial em preservar as artes marciais nativas.

Nas décadas seguintes, em vista da constante inquietude pública e atividade de guerrilha intermitente, as regras japonesas se tornaram progressivamente mais brutais. A censura foi aumentada, o ensino de história e cultura coreana foi banido, o ensino da língua japonesa passou a ser mandatório nas escolas e toda a sinalização pública foi feita em japonês. Com a aproximação da Segunda Guerra Mundial, centenas de milhares de trabalhadores coreanos foram realocados para ajudarem o exército japonês na Coreia e na China – essencialmente trabalho escravo. Muitos coreanos veem este período de 36 anos como uma tentativa de genocídio cultural, no qual uma geração inteira perdeu sua liberdade e identidade cultural. Mesmo atualmente, as cicatrizes são evidentes.

Yong-Sul Choi, um pioneiro fundamental do Hapkido, foi levado ao Japão em torno de 1912, provavelmente como uma criança escrava. Supõe-se que Choi estudou Daito Ryu Aiki-Jujutsu sob a supervisão do grão-mestre Sodaku Takeda durante 30 anos até a morte de Takeda em 1943. Os registros de Daito Ryu não contêm o nome de Choi, embora isso não seja uma surpresa, pois ele era estrangeiro, e a discriminação contra coreanos era comum naquela época no Japão. Acredita-se que Choi viveu na casa de Takeda, como um membro adotado da família (improvável), ou um servo (mais provável). Durante este período, os japoneses obrigavam os emigrantes coreanos a mudarem seus nomes para nomes japoneses. Asao Yoshida é o nome que Takeda deu para Choi. O papel específico de Choi no Daito Ryu Aiki-Jujutsu tem sido amplamente discutido. Na história falada, ele tem sido caracterizado de tudo desde um faxineiro presente nos treinos até um dos principais instrutores de Takeda.

Na tentativa de compreender a relação entre Choi e Takeda, é necessário entender a ordem social daqueles tempos. Takeda era o último de uma longa linhagem de samurais japoneses. Os japoneses consideravam-se uma “raça divina”. Neste período, os coreanos ocupavam o último patamar na ordem social japonesa, e eram comumente utilizados como servos ou trabalhadores. Esta ideia de superioridade racial estava tão profundamente enraizada na sociedade japonesa que seria socialmente inaceitável para Takeda reconhecer Choi algo mais do que um servo, independente de quanto Takeda pudesse gostar de Choi. Apesar do papel específico de Choi no Japão, não há muita dúvida de que ele retornou à Coreia com habilidades marciais formidáveis.

 

A Coreia depois de 1945

Em 1945, a Segunda Guerra Mundial acabou e a Coreia reconquistou sua independência do Japão. O período pós-guerra foi extremamente fértil para as artes marciais coreanas, pois muitos estilos tradicionais estavam sendo redescobertos e sintetizados em novos estilos ecléticos. Muitas artes que estavam sendo praticadas em segredo por décadas estavam sendo ensinadas em público pela primeira vez, enquanto muitos mestres ansiavam por reconhecimento público. Nas décadas seguintes, artistas marciais coreanos jovens também tentaram redescobrir e reorganizar as técnicas marciais tradicionais em novos sistemas compreensíveis que preservassem características nacionais e prevenir sua extinção.

Em torno de 1945 Choi retornou para a Coreia e começou a ensinar uma arte que batizou de Yu Sul (sem relação direta com o conjunto de técnicas antigas de mesmo nome). Acredita-se que Choi inicialmente ensinou uma forma pura de Daito Ryu Aiki-Jujutsu, mas adotou o nome coreano genérico de Yu Sul (arte suave), para tornar a arte mais aceitável aos coreanos, que reagiam negativamente a tudo que fosse japonês. Em algum momento, Choi mudou o nome para Yu Kwon Sul (arte dos punhos suaves), para distingui-lo do Judô (Yu Do, em coreano), que possui o mesmo significado do termo Yu Sul. Não se sabe ao certo se Choi fundiu Daito Ryu Aiki-Jujutsu com as reemergentes artes coreanas nativas que ele estava tendo contato. Muitos acreditam que ele continuou a ensinar e a praticar Daito Ryu Aiki-Jujutsu sem modificações por toda sua vida.

Os mais proeminentes alunos de Choi foram Bok-Sub Suh, Han-Jae Ji e Moo-Hong Kim. De acordo com Ji e Suh, Choi também se referia à arte que estudou no Japão como Yawara. Durante o fim da década de 1950 e na década de 1960, alguns dos alunos de Choi desenvolveram suas próprias ideias independentemente. Alguns estabeleceram novas artes marciais; outros – mais notavelmente Han-Jae Ji e Moo-Hong Kim – contribuíram com muitas inovações (particularmente com chutes), expandindo enormemente os fundamentos do Hapkido.

Até os anos 60, o Hapkido teve vários nomes, incluindo Yu Sul, Yu Kwon Sul, Hapki Yu Kwon Sul, Kido, e finalmente Hapkido. Possivelmente as técnicas de artes relacionadas como Bi Sul, Ho Shin Do e Yu Do (Judo) foram também absorvidas pelo Hapkido. Kuk Sool Won (fundado por In-Hyuk Suh) e Hwa Rang Do (fundado por Joo-Bang Lee) também emergiram neste período. As entrevistas com artistas marciais da época sugerem que havia um contato substancial entre estes vários estilos ecléticos, pois os praticantes estudavam com mestres diferentes a fim de enriquecer seus treinamentos.

Em 1965 o nome Hapkido estava em uso comum e o estilo já era considerado uma arte marcial coreana, com reconhecimento governamental. Eventualmente, muitos mestres de Hapkido emigraram para além dos oceanos e estabeleceram a arte globalmente, particularmente na América do Norte. Atualmente, os Estados Unidos da América concentram o maior número de praticantes de Hapkido fora da Coreia.

 

*Este texto foi originalmente escrito em Inglês, e pode ser encontrado no livro “Hapkido: Traditions, Philosophy, Technique” de Mark Tedeschi, publicado pela editora Weatherhill pela primeira vez em 2000. Para esta tradução foi utilizada a sexta edição, de 2013.

**Os nomes coreanos não foram alterados na tradução Inglês-Português e, portanto, são apresentados em sobrenome seguido de nome. Por exemplo: Ji Han Jae está apresentado como Han-Jae (sobrenome) Ji (nome próprio).